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LIÇÃO 6 – PERDÃO E A IGREJA

Pr. Samuel Muniz Bastos
Pastor distrital em São Luís, MA

Seria muito bom se na igreja de Deus não houvesse pecado. Algumas pessoas afirmam que quando somos batizados a nossa natureza pecaminosa morre. A lição desta semana mostra o caso de pessoas que, mesmo tendo aceito a Jesus, caíram em pecado.

Vale a pena ressaltar que quando aceitamos a Jesus, somos libertos da condenação do pecado. Mas este continua poderoso e é a permanência com Cristo em santificação que nos dá a vitória sobre o poder do pecado. Finalmente, a segunda vinda de Jesus nos livrará eternamente da presença do pecado.

Enquanto esse dia não chega, qual deve ser a postura da igreja de Deus quanto aos pecados de seus membros?

Pecados na Igreja

A igreja foi fundada pelo próprio Senhor Jesus (Mat. 16:18) e é constituída por todos os que nasceram do Espírito de Deus.

É a comunidade de crentes que confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. É a família de Deus; adotados por Ele como filhos, seus membros vivem com base no novo conceito (Efés. 3:15; Rom. 8:14-16; João 3:8).

A igreja é o corpo de Cristo, uma comunidade de fé, da qual o próprio Cristo é a cabeça (Efés. 2:16; I Cor. 12:13; Efés. 1:23).

Em Efésios 1:23 é dito: "a qual é o Seu corpo, a plenitude dAquele que a tudo enche em todas as coisas."

O principal ensino desse texto é que deve haver sintonia entre a cabeça e o corpo, e que de modo inseparável ambos caminhem na mesma direção, em unidade de propósito. Cristo é a cabeça; então, Seu pensamento deve ser refletido na ação prática do corpo.

A maneira de Cristo agir deve ser a maneira de agir da igreja. Como Cristo vê o pecado, deve ser a maneira da igreja vê-lo também. O trato de Jesus com o pecador deve ser imitado pela igreja.

É assim que a igreja tem agido? De maneira geral tem refletido a conduta do modelo que é Jesus Cristo?

O incidente na igreja de Corinto, mencionado em I Coríntios 5, nos ensina muito sobre o dever escriturístico quanto à ofensa e o ofensor.

"Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai" (I Cor. 5:1, NVI).

Aqui há a menção de um pecado público de dimensões sociais catastróficas, pois chegou ao ponto de causar um choque na comunidade descrente que circundava a igreja.

Diante dessa crise moral, a igreja de Corinto permanece omissa. Quão fácil é confundir omissão com misericórdia. O que levou essa igreja a agir assim? Acredito que por haver tantos outros problemas morais e espirituais na igreja, não havia força moral nem dignidade espiritual para chamarem o pecado pelo seu nome exato.

Praticamente, a proporção de problemas na igreja é quase igual à de capítulos da primeira epístola.

• cap. 1 – Problema de falta de unidade.

• cap. 3 – Problemas de facções: "sou de Paulo"; "sou de Apolo" etc.

• cap. 4 – A questão do sustento pastoral.

• cap. 5 – O problema da imoralidade.

• cap. 6 – O problema do litígio, dissensão.

• cap. 7 – Questões quanto ao casamento.

• cap. 8 – Carne sacrificada.

• cap. 11 – O uso do véu e intemperança na ceia do Senhor.

• caps. 12 e 14 – Questões quanto aos dons espirituais e desordem no culto.

A igreja perdeu a força para corrigir uma situação grave e foi culpada de coar um mosquito e engolir um camelo (Mat. 23:24), pois enquanto se debatia quanto a seus tutores espirituais (I Cor. 1:12 e 13), deixava sem atenção pecados de gravidade tal como a pornografia do capítulo 5.

Algo pior aconteceu. A igreja perdeu o senso da gravidade do pecado. É isso que Paulo nos mostra: "E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou?" (I Cor. 5:2).

Como eles deveriam agir? A mensageira do Senhor responde: "Caso haja erros claros entre Seu povo, e os servos de Deus passem adiante, indiferentes a isso, estão por assim dizer apoiando e justificando o pecador, e são igualmente culpados, incorrendo tão certo como ele no desagrado de Deus; pois serão tidos como responsáveis pelos pecados do culpado." – Ellen G. White, Testemunhos Seletos, vol. 1, págs. 334 e 335.

"Ele (Deus) quer ensinar a Seu povo que a desobediência e o pecado são excessivamente ofensivos a Seus olhos, e não devem ser considerados levemente. Ele nos mostra que, quando Seu povo se encontra em pecado, devem-se tomar imediatamente medidas positivas para tirar esse pecado do meio deles, a fim de que Seu desagrado não fique sobre todos." – Ibidem, pág. 334.

Não foi tomada nenhuma medida preventiva. Há muitas sugestões por que não fizeram isso. A lição sugere que o homem em pecado talvez fosse muito rico; talvez se achassem super-amorosos e tolerantes etc. Na verdade, os irmãos de Corinto se vangloriavam de sua suposta grandeza humana e de sua sabedoria terrena (I Cor. 1:18-21 e 25), gloriavam-se no homem e na carne (I Cor. 1:29).

A igreja de Corinto se julgava muito sábia, o que gerou presunção e a decorrente advertência paulina: "Não se enganem. Se algum de vocês pensa que é sábio segundo os padrões desta era, deve tornar-se "louco" para que se torne sábio." (I Cor. 3:18, NVI).

"Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber" (I Cor. 8:2).

Esse orgulho cultural gerou uma atitude que, às vezes, se repete em nossas congregações: "Não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça" (I Cor. 4:6).

O orgulho, baseado em posses materiais ou intelectuais, títulos, posições sociais ou outra coisa qualquer, jamais deve ultrapassar ou substituir um claro "está escrito" da palavra de Deus.

É o afastamento dos princípios da Palavra de Deus que leva a igreja a contemporizar com o erro.

A igreja de Corinto é muito semelhante a Laodicéia (que nos representa na atualidade). Ambas estão profundamente debilitadas pelo pecado mas não se dão conta disso. A indiferença para com o erro acaba gerando um falso bem-estar espiritual.

Ambas perderam a visão da Cruz, e por isso Paulo faz da Cruz sua principal pregação em Corinto (I Cor. 2:2 "decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e Este crucificado").

É impossível perder o foco da cruz e continuar odiando o pecado.

"Se os pecadores forem levados a contemplar com fervor a cruz, se alcançarem visão ampla do Salvador crucificado, reconhecerão a profundeza da compaixão de Deus e a malignidade do pecado." – Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, pág. 209.

"É impossível que encaremos a cruz com integridade e não sintamos vergonha de nós mesmos. Apatia, egoísmo e complacência vicejam em todos os lugares do mundo, exceto junto à cruz." – John Stott, A Cruz de Cristo, pág. 72.

Amigo, tem você olhado profunda e demoradamente para a cruz? Qual tem sido o resultado? Seu conceito de pecado é formado pelo relativismo pós-moderno ou pela cruz do Jesus?

Entregue a Satanás

Só existem dois reinos espirituais neste mundo: o de Deus e o de Satanás.

Não é possível servir a dois senhores simultaneamente. A proposição de que "pelos seus frutos os conhecereis" (Mat. 7:20) é reveladora quanto ao reino do qual participamos.

Esse homem de Corinto pelas suas atitudes declara de que lado ele está. Paulo, então, apela para que a igreja reunida, em conformidade com a autoridade e os ensinamentos de Jesus, remova do seu rol esse homem. O que Ellen G. White diz a seguir é esclarecedor nessa questão: "À igreja foi conferido o poder de agir em lugar de Cristo. … A ela o Senhor delegou poderes para dirimir todas as questões concernentes à sua prosperidade, pureza e ordem. Sobre ela impôs a responsabilidade de excluir de sua comunidade os que dela são indignos, que por seu procedimento anticristão acarretam desonra para a causa da verdade." –Testemunhos Seletos, vol. 3, págs. 200-204.

Por que agir assim? Porque a igreja é comparada a uma massa sem fermento e "um pouco de fermento leveda a massa toda" (I Cor. 5:6). O efeito contaminador do pecado deveria ser paralisado com a remoção do pecador.

Em I Timóteo 5:20, Paulo insiste quanto à necessidade de coibir a libertinagem na igreja: "Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam."

"Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?" (Rom. 6:2).

Morremos para o pecado para vivermos pela graça em santificação, "pois se o amor de Deus é santo, como o é, então se interessa não apenas em agir em santidade (como na cruz de Cristo), mas também em promover a santidade (no povo de Deus)." – A Cruz de Cristo, pág. 292.

O verso 5 mostra que Satanás pode destruir a carne, a vida de uma pessoa, pode até infligir-lhe sofrimento físico e até levar à morte. Mas mostra que Jesus pode transformar o homem, purificando-o das obras mortas da carne (Gál. 5:19), fazendo-o viver no espírito (Gál. 5:16; Rom. 8:10) em santificação preparado para o dia da volta de Jesus.

A percepção da diferença entre a submissão a Cristo e a submissão a Satanás poderia levar o pecador a avaliar sua atitude e a tomar uma decisão sábia: a de voltar em arrependimento.

Reafirmem seu amor

"A punição que lhe foi imposta pela maioria é suficiente. Agora, ao contrário, vocês devem perdoar-lhe e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza. Portanto, eu lhes recomendo que reafirmem o amor que têm por ele." (II Cor. 2:6-8, NVI).

Supondo que a pessoa referida nesses textos seja a mesma de I Coríntios 5, que cometeu pecado sexual, temos algumas lições a considerar neste relato.

Primeiro, Paulo recomendou uma disciplina, a qual foi aplicada de forma pública pela igreja. O tempo dessa disciplina corresponde pelo menos ao período entre a inscrição e envio da primeira epístola e a segunda, na qual é recomendada a aceitação do membro ofensor.

O tempo da disciplina é relevante para o pecador refletir que todo pecado gera conseqüências; e para a igreja perceber se houve mudança de atitude no pecador para recebê-lo com segurança.

O tempo não deixa de ser uma silenciosa, porém nítida advertência para os demais não incorrerem no erro.

Segundo, a mesma congregação que o removeu levantando o braço em sinal de aprovação disciplinar, deve agora abrir os braços para receber o irmão de volta. Essa atitude coletiva não dispensa que individualmente se demonstre afeição pela pessoa em erro.

Penso que uma das coisas mais difíceis para nós seja odiar o pecado sem odiar o pecador. Mas quando o erro é meu, a tendência é olhar para mim mesmo com complacência.

A igreja precisa ter muito equilíbrio para não tornar a disciplina mais criminosa que o motivo que a causou, pois perde o objetivo restaurador e corretivo e passa ser tortura.

No seu trato com o pecador, Jesus viveu o que espera que imitemos. Uma vez que perdoava alguém, não discriminava com os olhos nem reunia grupinhos para ficar desenterrando os erros passados. A Bíblia afirma que quando Deus perdoa, Ele esquece e ponto final.

Como igreja, precisamos ter equilíbrio para não criar uma tensão entre o que falamos e o que fazemos. Esse desequilíbrio entre profissão e vivência é que tem enfraquecido e desacreditado o cristianismo e levado pessoas a dizerem como Ghandi, "eu me tornaria um cristão se não fossem os cristãos".

Os três verbos de ouro que aparecem em II Cor. 2:7-10 são ‘perdoar’, ‘confortar’ e ‘confirmar’. O perdão gera o conforto da paz, por causa da aceitação que ele promove e essas atitudes confirmam no coração do ofensor o amor de Deus através da sua igreja.

É melhor a repreensão franca do que o amor encoberto, disse o sábio Salomão. Portanto, sem perder o equilíbrio, precisamos derramar o bálsamo do amor nas feridas causadas pelo pecado.

Como uma mão de ferro numa luva de veludo, deve ser a atitude da igreja quanto ao ofensor.

Quanto aos que relutam na reintegração do membro arrependido, lembrem-se: "bem aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova" (Rom. 14:22). A severidade desnecessária pode um dia vitimar seu próprios defensores "porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo" (Tia. 2:13).

Disciplina eclesiástica

"Em nome do Senhor Jesus, reunido vós e o Meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás... (I Cor. 5:4).

"O que ligares na Terra terá sido ligado nos Céus; e o que desligares na Terra terá sido desligado no Céu" (Mat. 16:19 cf. Efés. 1:22; 5:23).

Os textos acima objetivam deixar claro que a igreja tem autoridade derivada de Cristo para manter a ordem interna e disciplinar quando necessário.

Eu sempre reflito no seguinte: Se na maçonaria há regras; se para permanecer sócio de um clube é preciso observar as regras do clube; se até na máfia há regras, e a quebra de regulamentos desses estabelecimentos citados gera conseqüências às vezes de remoção, como na igreja do Deus vivo pode ser permitida uma conduta sem compromisso, isenta de repreensão?

Só se Deus deixasse de ser santo para não pedir mais que odiássemos o pecado.

Quando somos batizados nesta igreja fazemos um voto de treze itens e o de número 11 (onze) pergunta se "é seu propósito, pela graça de Deus, ordenar a vida em conformidade com os princípios ensinados pela Igreja Adventista?" Respondemos que "Sim". A conseqüente quebra autoriza a igreja a tomar medidas cabíveis quanto à transgressão.

Agora, quero dizer que mais relevante que a disciplina é o seu propósito.

"Sabe, pois, no teu coração, que, como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina o Senhor, teu Deus" (Deut. 8:5).

Com que finalidade?

"Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da Sua santidade" (Heb. 12:10).

Não esqueça que Deus delegou autoridade à Sua igreja. Levantar-se contra a igreja, o corpo, é desafiar e ofender a cabeça, Cristo.

A disciplina a princípio é desconfortável mas seu fim é benéfico. "Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça" (Heb. 12:11).

Deus é como um médico que, quando fere, seu propósito é salvar. "Eu repreendo e disciplino a quantos amo" (Apoc. 3:19).

É preferível a repreensão severa de Deus para salvar à liberdade no erro que acaba em condenação eterna.

Amigo e irmão, nunca esqueça que "Bem aventurado é o homem a quem Deus disciplina; não desprezes, pois, a disciplina do Todo-poderoso" (Jó 5:17).