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LIÇÃO 5 – PERDÃO E CULPA

Pr. Samuel Muniz Bastos
Pastor distrital em São Luís, MA

Este é um assunto com profundas dimensões e estou certo de que o que será dito não poderá ser comparado e nem suprir o que faltará. Nesta semana, um psicólogo cristão com profunda base bíblica daria grande contribuição para termos uma melhor compreensão da culpa e seus efeitos. Mas, embora limitado no conhecimento, estou convicto de que o Espírito Santo nos ajudará a partilharmos juntos a lição desta semana.

O Fator Culpa

Lady Macbeth e Pilatos têm algo em comum, ambos lavam as mãos na inútil tentativa de se livrarem da culpa, sem levar em consideração que essa água não pode lavar a consciência. Pilatos deu fim à própria vida, possivelmente torturado por uma consciência que arquejava sob o pesado fardo da culpa, sem saber lidar com ela e, impotente para livrar-se dela, livrou-se da vida, acrescentando à culpa maior pecado.

Não é de surpreender que dramas como esse não sejam peculiares a uns poucos. Pelo contrário, é um mal generalizado. Todos os homens, estão obrigados a confessar-se culpados perante o tribunal de Deus. As palavras da Bíblia afirmam bem essa situação: "Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado" (Rom. 3:9).

A partir desse texto Paulo passa a explorar essa realidade da sujeição universal ao pecado e à culpa, com base nas Escrituras. O apóstolo faz uso de sete citações do Antigo Testamento, as quais mostram de maneiras diferentes a realidade culposa da injustiça humana (Ecl. 7:20; Sal. 5:9; 10:7; 14:1-3; 36:1; 140:3; Isa. 59:7).

John Stott em seu comentário de Romanos afirma que três características se ressaltam neste lúgubre quadro bíblico.

A primeira é a ausência de Deus na vida que é marcada pelo pecado. Em Romanos 3:11 é dito que "... não há quem busque a Deus" e no verso 18 é dito, "não há temor de Deus diante de seus olhos".

A separação de Deus é a causa número um da culpa, e a permanência na separação torna férreos seus tentáculos e impotente o homem para livrar-se dela. Separação de Deus é a essência do pecado, o que ocorre depois é só resultado da ausência divina.

Em segundo lugar, os textos do Velho Testamento que Paulo cita destacam a natureza destruidora do pecado e sua capacidade de infestar a nossa vida, pois ele afeta todas as partes da constituição humana, todas as nossas faculdades e funções, inclusive nossas mentes, emoções, sexualidade, consciência e vontade.

Nos versos 13-17 a descrição de várias partes do corpo como garganta, língua, lábios, boca, pés, olhos, demonstram que interna e externamente, da cabeça aos pés o homem está infeccionado pelo pecado.

Esses órgãos foram criados para o propósito santo de glorificar a Deus, mas agora são usados em rebelião contra Deus. Perderam seu propósito e lugar aos olhos de Deus e sempre que algo se desvia do plano de Deus, não há como permanecer sem culpa ante o Criador.

Em terceiro lugar, a insistência em palavras como: não há ninguém justo (v. 10, BLH) nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus (v. 11); não há ninguém que faça o bem, não há um sequer (v. 12), ressaltam a universalidade do pecado.

No planeta, o pecado atingiu todos os homens, e no homem todas as áreas de sua vida.

O apóstolo mostra que os gentios com sua escandalosa depravação (Rom. 1:18-32), os moralistas com sua justiça hipócrita (2:1-16) e os Judeus com sua arrogância de gabar-se da guarda da lei quando ao mesmo tempo quebravam-na, são todos excluídos no juízo de Deus.

"Dessa maneira toda boca é calada, toda desculpa silenciosa e o mundo inteiro, tendo sido declarado culpado, está sujeito ao juízo de Deus."

Somos como um réu que tendo a oportunidade de pronunciar-se em defesa própria, fica sem fala em virtude do peso das provas que foram levantadas contra nós.

"Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?" (Prov. 20:9).

Viagem de Culpa

Como visto anteriormente, todo ser humano é pecaminoso, em conseqüência sofre de culpa. Culpa é um resultado objetivo do pecado, é o reconhecimento da ofensa contra Deus e sua resultante sujeição à ira divina. É primariamente uma relação a Deus, e secundariamente uma relação à consciência.

Várias pessoas têm tentado conceituar a culpa e tornar seus conceitos a última palavra sobre o assunto. Por exemplo, Freud afirma que o sentimento de culpa seria somente o efeito de um constrangimento social que nasce na alma da criança quando seus pais ralham com ela e nada mais é do que o sentimento de angústia por perder o amor de seus pais que se tornaram de repente hostis.

Freud não está errado. A Bíblia afirma o quanto o ser humano tem necessidade de se sentir amado. Freud não está errado pelo que diz aqui, mas pelo que deixa de dizer, pois seu conceito de culpa não explica todos os casos de sentimento de culpa.

Para Jung a culpa surge de uma recusa de aceitar a si próprio, na sua totalidade. Trata-se de uma culpa de si mesmo em relação a si próprio. É exemplificada por pessoas que se martirizam com acusações terríveis, que embora pareçam sem fundamento, ninguém consegue aliviá-los.

Martin Buber diz que a culpa autêntica é caracterizada por carregar sempre uma violação de uma relação humana, e constitui uma ferida do relacionamento eu-tu.

Esses conceitos não são errados, mas não são completos, porque à luz da Bíblia, a verdadeira culpa nos aparece com uma culpa em relação a Deus, uma ruptura da ordem de dependência do homem em relação a Deus. A verdadeira culpa é a que resulta do julgamento divino.

Em Gênesis 3:10: "Ele respondeu: Ouvi a Tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi." Aqui está, entre as outras rupturas, a ruptura psicológica com seu resultado em medo e divisão interior, o homem virando as costas para Deus, caminhando sem Deus, nascendo sem Deus, trafegando nas avenidas do pecado a viagem da culpa.

A partir deste começo a culpa tem-se tornado complexa na mente humana e às vezes de difícil interpretação, porque à semelhança de Freud, Jung e Buber, conceitos são formados, e embora parcialmente abrangentes, não criam senso da verdadeira culpa, a culpa em relação a Deus.

A falsa culpa, de acordo com Paul Tornier em seu livro Culpa e Graça, pág. 75, é a que resulta dos julgamentos dos homens e de suas sugestões. Mesmo que não queiramos somos atingidos por essas sugestões sociais, porque a consciência culpada é a constante da nossa vida.

Um filho pode sentir-se culpado por não tirar as melhores notas na escola. Uma mulher, talvez, possa sentir-se culpada por não ter um corpo escultural. Após escrever este comentário posso sentir-me culpado ao relê-lo, com a preocupação de saber se ajudei ou não os leitores a compreenderem melhor este assunto. Posso sentir a sensação de culpa por não ser tão intelectual como gostaria.

Isto é real e nos atinge devido à nossa fragilidade psicológica, mas não constitui o cerne da verdadeira culpa, pois esta "verdadeira culpa é a de não depender de Deus, somente de Deus".

Por que para os cristãos a possibilidade de culpa aumenta ainda mais?

Paul Tornier, afirma que "é de degrau em degrau que a consciência de nossa culpa e do amor de Deus crescem juntas. São os santos que têm o senso do pecado, e o senso de pecado é a medida do senso de Deus em uma alma". – Culpa e Graça, pág. 185.

Na realidade, a culpa acompanha o crente, mesmo após a conversão. Mas, os crentes mais despreparados com suas próprias pessoas é que manifestaram com mais ardor a sua confiança na graça.

O apóstolo Paulo ilustra muito bem essa situação humana nos capítulos 7 e 8 de Romanos. Mesmo sendo já convertido ele diz: "porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Desventurado homem que sou! ... (Rom. 7:19-24). Mas no capítulo 8 este desespero dá lugar bruscamente a um canto triunfal: "graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. ... Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rom. 7:25; 8:1).

A graça remove a condenação e pode remover todo sentimento de inferioridade e insatisfação pessoal. Mas quero dizer que a completa libertação desse sentimento só ocorrerá por ocasião da segunda vinda de Cristo, pois um pouco antes, na "angústia de Jacó" ao mesmo tempo que os fiéis de Deus têm profunda intuição de sua indignidade, não possuem falta oculta para revelar. (O Grande Conflito, pág. 625). Isso mostra que senso de culpa não é só uma questão de "fazer" mas de "ser" participante da natureza pecaminosa, da qual só estaremos livres quando Jesus Se manifestar e este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade (I Cor.15:53).

O Fator Cruz

A lição desta semana começa mostrando a universalidade da culpa onde "todos os seres humanos, de todas as raças e classes sociais de todos os credos e culturas, tanto judeus como gentios, imorais e moralistas, religiosos e ateus – todos, sem exceção, são pecadores, culpados, indesculpáveis e sem defesa diante de Deus! Eis o quadro terrível e desolador com que Paulo descreve a situação da raça humana em Romanos 1:18; 3:20. Sem um raiozinho de luz, nenhuma fagulha de esperança, sem a mínima perspectiva de socorro". – John Stott, Romanos, pág. 122.

É um quadro desolador, angustiante que evoca choro. Mas, assim como diz João: "Não chores; eis que o leão da tribo de Judá... venceu" (Apoc. 5:5), Paulo interrompe de súbito seu discurso da condição humana e no ponto em que não há aparente solução para a humanidade, ele diz: "Mas agora, ... se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas" (Rom. 3:21).

Como foi? Na cruz. "A saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação" (II Cor. 5:19).

A cruz de Cristo é o ponto onde a dívida da humanidade é paga, porque "o homem pecador deve a Deus, por causa do pecado, o que não pode pagar, e a menos que pague não pode ser salvo... mas não há ninguém que pode trazer satisfação a não ser o próprio Deus. Mas ninguém deve fazê-la a não ser o homem; de outra forma o homem não oferece satisfação. Portanto é necessário que alguém que seja Deus-homem a faça". – John Stott, A Cruz de Cristo, pág. 107.

Ellen G. White afirma de maneira brilhante a relevância do fator cruz para a redenção humana quando diz que "o coração de Deus anseia por Seus filhos terrestres com amor mais forte que a morte. Entregando Seu Filho, nesse único Dom derramou sobre nós todo o Céu." – Caminho a Cristo, pág. 21.

A salvação não é uma idéia; é uma pessoa. É Jesus Cristo que na cruz cura as roturas feitas pelo pecado no Éden. É o bálsamo da cruz que alivia o fardo da nossa culpa e retira da nossa mente e da nossa vida a palidez da morte eterna.

De modo prático temos crido e vivido a graça que pregamos?

O Fator Amor

A cruz só se tornou uma âncora de esperança e salvação porque a razão da sua existência é o amor. Dentre as várias perfeições de Deus, o Seu amor é algo incomparavelmente maravilhoso. À grandeza e sublimidade desse amor, são bem aplicadas as palavras poéticas de Frederick M. Lehman no hino "Sublime Amor".

"Se em tinta o mar se transformasse,

E em papel o céu também,

E a pena ágil deslizasse,

Dizendo o que esse amor contém,

Daria fim ao grande mar,

Ao esse amor descrever,

E o céu seria mui pequeno

Pra tal relato conter." – Hinário Adventista, no 31

O apóstolo João confirma as palavras poéticas dizendo que no mundo não caberiam os livros que seriam escritos caso cada ação de Jesus fosse registrada em papel e tinta (João 21:25). As obras de Jesus eram amor, porque Jesus era amor em carne e osso, e Jesus em carne e osso era a plenitude do Céu derramado em amor no meio da humanidade.

O amor de Deus na pessoa de Cristo era como o Sol incidindo seus raios em todas as direções e ao mesmo tempo era como água, procurando os níveis mais baixos por onde pudesse correr.

A cruz de Cristo é o farol de onde brilha esse amor. A cruz é o equilíbrio do Universo, pois ali Deus revela Sua santidade sem nos destruir, e o Seu amor sem tolerar os nossos pecados. Como disse Calvino, "Deus, de um modo divino e maravilhoso nos amou mesmo quando nos odiava". (conf. Rom. 5:8-10)

O texto de hoje diz: "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o Seu filho como propiciação pelos nossos pecados" (I João 4:10).

Esse amor não é uma peça de vitrine para ser apreciado, mas é um dom do Céu a ser usado. É no Universo a única solução para o problema da culpa.

A culpa reprimida ou reconhecida desencadeia dois mecanismos inversos. Diz o Dr. Paul Tournier que "quando reprimida, ela dá lugar à cólera, à revolta, ao medo e à angústia, a uma insensibilidade da consciência, a uma impossibilidade crescente de reconhecer as próprias faltas e a uma exaltação crescente de impulsos agressivos. Quando reconhecida conscientemente, ela conduz ao arrependimento, à paz, à segurança do perdão de Deus e à um enfraquecimento progressivo dos impulsos agressivos". – Culpa e Graça, pág. 176.

Devido à ética cristã com seus elevados padrões (Mat. 5:20), alguns cristãos têm perdido a alegria e felicidade propostas pela graça de Cristo, tentando pelo "perfeccionismo" alcançar pelas obras a altura inatingível desses elevados padrões. Alguns caem no recalque da consciência e tornam-se amargurados por uma culpa interior ao verem que suas tentativas resultam em frustração, embora tentem não exteriorizar isso.

Por que isso ocorre? Por falta de crença prática no amorno qual que dizem crer. Se eu creio que sou salvo pela graça, essa crença precisa aprender a descansar nos braços da graça enquanto Cristo faz por mim o que não posso fazer por mim mesmo.

Isto é descansar mental, espiritual e fisicamente no amor de Deus. "No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento [mental, físico e espiritual]; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor" (I João 4:18).

Não precisamos temer se alcançamos ou não altos padrões. Precisamos temer é tentar alcançá-los sem Cristo e viver sem o amor de Cristo.

*Tem você confiança pessoal no amor que professa crer?

*Esse amor o tem ajudado a compreender-se e aos outros?

Paz Com Deus

"Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (Rom. 5:1).

Depois que Paulo apresenta a triste condição humana em seu estado inescapável das garras da culpa, ele abre no horizonte a esperança da cruz que, operando pelo amor, tornou-se a única solução para o problema do pecado.

No verso de hoje, percebemos que essa solução não é só uma declaração externa de libertação, mas há uma operação interna de libertação e transformação. A justificação não é só algo feito pelo homem, mas no homem, redundando na tão almejada paz interior.

Seria e é ridículo falarmos de paz, e enquanto as palavras fluem, sentirmos a amargura da guerra interior pela consciência de que as palavras não correspondem à verdade no íntimo. E quantas pessoas sofrem este drama.

Como superar isso? Paulo responde: "Alegrai-vos sempre no Senhor". (Filip. 4:4) O que posso fazer? "Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica com ações de graças" (v. 6).

O que eu ganho com isso? "E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus" (v. 7).

Como disse alguém, "paz é alegria em repouso; alegria é paz a dançar".

Para nos apossarmos dessa paz, precisamos como Paulo ter certeza em quem cremos: "Porque sei em quem tenho crido e estou certo de que Ele é poderoso..." (II Tim. 1:12).

"A característica peculiar de uma religião como o cristianismo é representada por uma fé que remove a culpa, através da crença na redenção, no perdão e na graça..." – Dr. Laforgue, citado em Culpa e Graça, pág. 199.

Agora, em conclusão apresento a declaração que para mim sintetiza tudo que precisamos saber e praticar quanto à paz da justiça de Cristo.

"Aquele que mandou aquietarem-se as ondas da Galiléia proferiu para cada alma a palavra de paz. Por mais furiosa que seja a tormenta, os que para Jesus se volverem com o grito: ‘Senhor, salva-nos’, encontrarão livramento. Sua graça, que reconcilia a alma com Deus, acaba com a luta da paixão humana, e em Seu amor encontra paz o coração. ‘Faz cessar a tormenta, e acalmam-se as ondas. Então se alegram com a bonança; e Ele assim os leva ao porto desejado.’ Sal. 107:29 e 30. ‘Sendo pois justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.’ ‘E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça repouso e segurança, para sempre.’ Rom. 5:1; Isa. 32:17. – Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, págs. 336 e 337.

Querido irmão, que falemos dessa paz com nossos lábios, vivendo-a no coração. Graça e Paz, Amém.