Make your own free website on Tripod.com

LIÇÃO 2 – O PERDÃO NA BÍBLIA HEBRAICA

Pr. Samuel Muniz Bastos
Pastor distrital em São Luís, MA

Marcião nasceu em Sínope, no Ponto (no mar Euxine), Ásia Menor, atualmente território da Turquia. Ele era um rico proprietário de navios que abandonara os negócios para dedicar-se à fé religiosa. No entanto, ele se tornou tão antipático à corrente principal do cristianismo que Tertuliano o compara ao cínico Diógenes, com a diferença de que o grego teria acendido a lanterna em pleno dia para achar um homem de verdade, e Marcião a teria apagado à noite a fim de perder o verdadeiro Deus.

Ele era um gnóstico dedicado e perigoso, cujo zelo na busca de um cristianismo puro o tornou um fanático anti-semita. Formou seu próprio cânon, que consistia de onze livros (o evangelho de Lucas reduzido e mutilado, e dez das epístolas de Paulo).

Escreveu uma obra intitulada "Antítese" na qual apresenta o Deus do Antigo Testamento como sendo rude, severo e pouco misericordioso. Dizia também que o Jeová judaico, o qual chamava de Demiurgo, era um ser finito, imperfeito e iracundo.

Christopher Wordsworth – Bispo de Lincoln (1881) disse que "Marcião teve e tem muitos seguidores de outras épocas, talvez inconscientes de sê-lo". Isto é deplorável, mas é verdadeira tal situação, onde muitas pessoas ditas cristãs deturpam o caráter de Deus. O conhecimento superficial do Antigo Testamento leva a tais conclusões.

No entanto, nesta semana veremos como a Bíblia hebraica desmente as pretensões marcionitas passadas e presentes, revelando a natureza bondosa, paciente e perdoadora do Deus do Antigo Testamento, que é o mesmo do Novo Testamento (João 8:58; 10:30; 14:9).

O DEUS PERDOADOR

I Cor. 8:12; II Sam. 12:13; Gên. 39:9, juntamente com Salmo 51:4: "pequei contra Ti, contra Ti somente..." (conf. Dan. 9:8; Jer. 51:1) nos ensinam que todo pecado, a despeito de suas conseqüências sociais, físicas e emocionais, em primeira instância é uma agressão direta a Deus, porque se manifesta em transgressão da lei de Deus (I João 3:4).

Nesse contexto disse Henry Wace, Deão de Cantuária de 1903 a 1924, o seguinte:

Uma lei que não possui sanção, no sentido técnico dessa expressão, em outras palavras, uma lei que pode ser quebrada sem penalidade adequada, não é lei de modo nenhum; é inconcebível que a lei moral de Deus possa ser violada sem conseqüências do tipo mais terrível.

A mera quebra de uma das suas leis físicas pode trazer, quer os homens tenham pretendido violá-la, quer não, a miséria mais duradoura e geral; será que podemos supor, com razão, que a quebra mais flagrante e voluntariosa das mais altas de todas as leis – as da verdade e da justiça – não trariam tais resultados?

Esclarecendo um pouco mais como a transgressão atinge o coração de Deus, R.W. Dale disse que "a conexão de Deus com a lei não é uma relação de sujeição, mas de identidade. ... Em Deus a lei é viva; ela reina no Seu trono, brande o seu cetro, é coroada com a Aua glória. Pois a lei é a expressão do Aeu próprio ser moral, e o Seu ser moral é sempre auto-coerente".

Apesar da ofensa ser frontalmente contra Deus, como a Bíblia o retrata na sua disposição quanto ao pecador?

"Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; ... que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado" (Êxo. 34:6 e 7).

"Quem, ó Deus, é semelhante a Ti, que perdoas a iniqüidade e Te esqueces da transgressão do restante da Tua herança? O Senhor não retém a Sua ira para sempre porque tem prazer na misericórdia" (Miq. 7:18).

Êxodo e Miquéias estão separados por séculos e por variados eventos na história de Israel, mas a descrição quanto a Deus é que o tempo não desgasta Seu caráter e Sua disposição perdoadora "porque Eu, O Senhor, não mudo..." (Mal. 3:6).

Nós pecamos contra Deus e necessitamos do Seu perdão. O que o Deus do Antigo Testamento faz e quer fazer com o nosso pecado?

  1. Ele o remove, põe de lado, joga fora como roupas sujas e rasgadas (Isa. 6:7; Zac. 3:4).
  2. Ele o afasta (Êxo. 34:6-7).
  3. Ele o apaga (Isa. 43:25; 44:22; conf. Sal. 51:1-9).
  4. Ele o lava e limpa (Sal. 51:2; conf. 51:7; Jer. 33:8).
  5. Ele elimina, remove. (Sal. 51:7; 103:12).
  6. Ele o cobre (Sal. 33:1).
  7. Ele o expia (Ezeq. 16:62-63; conf. Isa. 6:7; Sal. 65:3; 79:9).
  8. Ele esquece e não Se lembra do pecado (Isa. 43:25).
  9. Ele o pisoteará. (Miq. 7:19).
  10. Ele o lança para trás de Si e no mar (Isa. 38:7; Miq. 7:19).
  11. Ele os perdoa. Sal. 103:3; conf. Nee. 9:17; Sal. 130:4; Isa. 55:7.

O espaço não permite mais comentário, mas desse rápido passeio na Bíblia hebraica podemos concluir que o Deus do Antigo Testamento é um Deus perdoador.

Palavras hebraicas para perdão

Os textos bíblicos que aparecem na lição fazem referência a três vocábulos hebraicos cujo significado é ‘perdão’. São eles Saláh, Násá’ e Kápar.

Cada um expressa um aspecto diferente do perdão.

Neste contexto, o gracioso Deus retira o fardo do pecado e carrega as suas conseqüências. É o evangelho antes da cruz. Não é só um pronunciamento de perdão, é uma mão que "levanta" o pecador. Como diz Ellen White, "é não somente perdão pelo pecado, mas livramento do pecado". – O Maior Discurso de Cristo, pág.114.

O sujeito da palavra násá’ pode ser tanto Deus como seres humanos em geral.

Emprega-se Saláh para referir-se ao oferecimento que Deus faz de perdão ao pecador. Não se acha esta raiz em nenhuma de suas formas, referindo-se a humanos se perdoando mutuamente. Ocorre apenas com Deus como sujeito. De acordo com o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, em acadiano existe uma raiz semelhante, Saláhu, significa "aspergir" e é usada no sentido médico e cultural. Ralph Smith afirma que, em hebraico, esse sentido concreto não transparece, mas como a raiz vem de um contexto de culto, poderia ter sido usada com o sentido de "aspergir" e depois "perdoar".

Se isso é verdade, diz Smith, o perdão é um processo de purificação espiritual e mental que restaura o relacionamento entre Deus e o ser humano e entre as pessoas.

No Novo Testamento, a palavra ‘perdão’ é resultado da purificação pelo sangue de Jesus (I João 1:7-9), cujo lavar regenerador assegura a vitória aos fiéis (Apoc. 7:14).

Em I Ped. 1:2 a aspersão do sangue de Jesus é um dos motivos da justificação dos santos. Isto cria um elo de ligação com o Antigo Testamento e a palavra Sáláh, mostrando que o sentido do perdão é o mesmo em ambos os testamentos.

A terceira palavra, que aparece em Deut. 21:8; Jer. 18:23; Lev. 1:4; 4:20 e 35 é Káppar ou Kipper, cujo significado é "fazer expiação; fazer reconciliação, purificar". É perdão com base num substituto.

Essa palavra é usada cerca de 150 vezes no Antigo Testamento e tem sido objeto de intensos debates. R. Laird Harris afirma que existe uma raiz árabe equivalente que significa "cobrir" ou "ocultar". Daí alguns pensam que a palavra hebraica significa "cobrir o pecado" e dessa maneira aplacar a ira da divindade, pois assim ocorria com as divindades pagãs.

No entanto, no Antigo Testamento Deus é sempre o sujeito do verbo Kipper, nunca o objeto, quando o verbo se refere a Ele. No Antigo Testamento Deus é o expiador e não o expiado, como diz Ralph L. Smith: "Não existe a idéia de tornar propício um Deus irado ou de pagar-Lhe uma compensação pelo mal que lhe foi feito". Pelo contrário, "é o próprio Deus que expia o pecado removendo-o da maneira escolhida por Ele".

Na teologia cristã, o termo ‘expiação’ tem servido quase exclusivamente em referência à morte de Cristo para expiar os nossos pecados e nos reconciliar com Deus.

Em suma, essas três palavras mostram que a provisão do perdão vem de Deus, que no Antigo Testamento é retratado como um Deus perdoador.

O perdão de Deus é tão abundante e Ele está tão disposto a oferecê-lo, que essa oferta às vezes retrata Deus mudando de postura ante a resposta humana ao Seu chamado. Essa mudança é chamada de "arrependimento" de Deus.

Isso confunde um pouco, porque medimos o arrependimento divino a partir da maneira como nós compreendemos o arrependimento, que para nós significa tristeza pelo pecado. Isso é inaplicável a Deus.

A aparente contradição vem de dois tipos de passagens que afirmam:

O hebraico nos ajuda a entender isto melhor.

A palavra aplicada ao "arrependimento" de Deus é Náham e significa: ter pena, arrepender-se, lamentar, sentir muita tristeza por causa de, mudar de idéia a respeito de, consolar.

Na maioria dos casos, refere-se à compaixão de Deus, e quando se emprega Náham com respeito a Deus, a expressão é antropopática ou antropomórfica, ou seja, atribuição de características humanas a Deus. Isso porque a Bíblia foi escrita em linguagem popular a fim de facilitar a compreensão.

A palavra usada com mais freqüência para o arrependimento humano é Shûb, que significa, "voltar-se" (do pecado para Deus).

Em suma, a mudança de atitude de Deus é condicionada à resposta humana, a qual abre espaço para Deus agir com o perdão, como afirma Jer. 18:7-10: "Se a tal nação se converter..." (resultado) "então, Me arrependerei." "Pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-Se, e grande em benignidade, e que Te arrependes do mal." Jon. 4:2.

As duas últimas partes da lição, que falam sobre Oséias, tratam especificamente de duas coisas: A natureza do pecado e a atitude de Deus para com Seu povo, a despeito do pecado.

Gômer entrou numa relação de concerto (matrimonial) com Oséias. Isso implicava relacionamento, respeito e dependência. No entanto, sua atitude de infidelidade, ações contrárias à ética conjugal, ações de deliberada auto-independência, retratam a essência do pecado, desde a queda de Lúcifer, Adão e Eva, a história de Israel e a nossa.

Essa essência, como diz Frank B. Holbrook, consiste na criatura querendo ser independente do criador. É a recusa do pecador em submeter-se à autoridade divina. O pecado de anjos e seres humanos resume-se na mesma coisa: Obstinação em submeter-se a nenhum outro deus senão a si mesmo.

O que Gômer pratica em escala individual contra Oséias é feito em escala nacional contra Deus.

Mas a despeito disso, talvez nenhum outro livro da Bíblia retrate de maneira tão profusa o amor de Deus pelo pecador como o de Oséias.

Deus assume o ridículo papel de um marido traído que insiste num amor sem ser correspondido, porque o amor de Deus jamais acaba (I Cor. 13:8). Gômer merecia o apedrejamento, mas Oséias sacrifica sua honra para aceitá-la. Nós merecemos a morte, mas Deus Se sacrifica para nos salvar.

No capítulo 11, Deus retrata o papel de um pai que ama (11:4); que ensina o filho a andar (v. 3), que vê o filho crescer e se afasta,e por isso Se contorce de emoção pelo que pode acontecer a esse filho, Israel (v. 8) .

Ainda em Oséias 1:10, a despeito das decepções, Deus não reluta em dizer que, "no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois Meu povo, se lhes dirás: Vós sois filhos do Deus vivo".

A história do amor de Deus por Israel, contada em Oséias, continua no Novo Testamento no livro de João, capítulo 4.

Deus vem pessoalmente, em Cristo, para materializar a grandeza do amor que Ele descreve em Oséias. Diante disso, nossa conclusão é que o Deus do Antigo Testamento é um Deus amoroso e perdoador, cuja graça é o motivo de júbilo dos fiéis do Antigo Testamento.

"No tocante a mim, confio na Tua graça; regozije-se o meu coração na Tua salvação." Sal. 13:5.

Bibliografia Consultada:

1 - A Bíblia Hebraica Stuttgartensia.

2 - Archer, Glaison, Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas.

3 - Feinberg, Charles L., Os profetas Menores.

4 - Harris, R. Laird, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento.

5 - Mateos, Juan, Barreto, Juan, O evangelho de João.

6 - Holbrook, Frank B., O Sacerdócio Expiatório de Jesus Cristo.

7 - Stott, John, A Cruz de Cristo.

8 - Smith, Ralph L., Teologia do Antigo Testamento.