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LIÇÃO 1 – DEUS E O PERDÃO

Pr. Samuel Muniz Bastos
Pastor distrital em São Luís, MA

Na lição desta semana somos apresentados a um tema empolgante, aparentemente fácil de ser compreendido, mas que possui uma complexidade misteriosa e profunda – o perdão.

Anselmo, que foi arcebispo de Cantuária, escreveu no seu livro "Cur Deus Homo?" no final do século XI, que "se alguém imagina que Deus pode simplesmente nos perdoar como nós perdoamos uns aos outros, essa pessoa ainda não pensou na seriedade do pecado, ou que peso tão grande o pecado é".

Para completar esse pensamento, Carnegie Simpson disse que "o perdão, para o homem, é o mais claro dos deveres; para Deus é o mais profundo dos problemas".

Antes de ver a profundidade desse problema precisamos entender algo sobre o pecado. Este, como diz Frank Holbrook "é uma afronta pública ao Seu ser (de Deus) imaculado... Seu caráter foi manchado. A vontade de Deus, conforme expressa em Sua lei, foi transgredida. A rebelião escarneceu de Sua autoridade e governo. Mais grave ainda, Sua própria natureza foi desafiada".

A Bíblia diz em Isaías 6:3: "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos."

Aqui está o problema: Deus é santo, por isso o pecado "não pode ser tolerado em Sua presença ou em Seu Universo. A santidade interna de Deus e a Sua autoridade externa como soberano são obrigadas a reagir contra a pecaminosa rebelião de Suas criaturas". Como disse Anselmo, "o homem pecador deve a Deus, por causa do pecado, o que não pode pagar, e a menos que pague não pode ser salvo".

Nesta situação, há um grande dilema para Deus, visto que a perfeição da Sua justiça exige a aplicação das penalidades da lei sem que ao mesmo tempo Seu amor não fique de lado. Jeremias 31:3 diz: "Com amor eterno Eu te amei; por isso, com benignidade te atraí." Esse é um dos inúmeros textos bíblicos que ilustram o amor de Deus.

Deus não está dividido entre amor e justiça. Por outro lado, Ele não é fiel a apenas uma parte de Si mesmo (quer à Sua lei de honra, quer à lei da justiça) nem exprime um de Seus atributos (quer o amor, quer a santidade) a expensas de outro, conforme John Stott em seu livro A Cruz de Cristo, pois Deus é completa e invariavelmente Ele mesmo na plenitude de Seu ser moral, independente da situação e do tempo.

Diante disso, para Deus perdoar, Ele precisa de um meio que não se choque com a Sua auto-coerência.

"Como, pois, podia expressar simultaneamente Sua santidade no juízo e Seu amor no perdão?" pergunta Stott, visto que o obstáculo ao perdão não é somente o nosso pecado, nem somente nossa culpa, mas também a reação divina em amor e ira para os pecadores culpados. Pois embora Deus seja amor, Seu amor é um amor santo que anseia pelos pecadores enquanto Se recusa a tolerar o pecado.

É muito útil ainda o que John Stott nos diz ainda sobre Deus e o perdão, no mesmo livro, pág. 119:

"Não devemos retratá-lo nem como um Deus indulgente que compromete Sua santidade a fim de nos poupar, nem como um Deus duro e vingativo que suprime o Seu amor a fim de nos destruir. Como, pois, pode Deus expressar Sua santidade sem nos consumir, e o Seu amor sem tolerar os nossos pecados? ... Como Ele pode nos salvar e satisfazer a Si mesmo simultaneamente? Respondemos... que a fim de satisfazer a Si mesmo, Ele sacrificou – deveras substitui a Si mesmo por nós."

Deus cumpriu Sua própria exigência na pessoa de Cristo, que tornou público esse amor na cruz morrendo por nós, sendo nós ainda pecadores (Rom. 5:8).

É bom lembrar, no entanto, que antes que houvesse uma cruz nos arredores de Jerusalém, já havia uma cruz no coração de Deus, pois Jesus foi "morto desde a fundação do mundo" (Apoc. 13:8). O amor de Deus não existe por causa da cruz, o amor de Deus é a causa da cruz.

Que existe um Deus é algo notável; que esse Deus é amor, é maravilhoso; que esse amor é eterno e estável, é surpreendente.

Assim como Deus é Deus de eternidade a eternidade (Sal. 90:2), Seu amor também o é, pois nEle não há variação nem sombra de mudança (Tiago 1:17).

De uma perspectiva humana, parecia difícil para Deus perdoar, mas Ele achou possível fazê-lo de algum modo. Diante disso, só podemos exclamar como Paulo: "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!" (Rom. 11:33).

Diz a mensageira do Senhor que "Quanto mais estudarmos o caráter divino à luz que vem da cruz, tanto mais veremos a misericórdia, a ternura e o perdão aliados à equidade e à justiça, e tanto mais caro discerniremos as inumeráveis provas de um amor que é infinito..." – Caminho a Cristo, pág.15.

Em resposta a esse amor infinito, o pecador aceita a Deus e Deus ao pecador. Ao aproximar-se de Deus, terá ele uma visão mais ampla de Deus, de si mesmo e do pecado.

Sua atitude quanto ao pecado será de afastamento. Aqui entra a confissão como precedente de acordo com Prov. 28:13.

Confissão nada tem a ver com a onisciência de Deus. Se a onisciência de Deus a eliminasse, também não haveria necessidade do juízo pré-advento, pois Deus sabe o fim desde o começo.

Os seguintes textos , mostram a confissão precedendo o perdão:

"Será, pois, que, sendo culpado numa destas coisas, confessará aquilo em que pecou..." (Lev. 5:5).

"Quando o Teu povo de Israel, por ter pecado contra Ti, for ferido diante do inimigo, e se converter a Ti, e confessar o Teu nome, e orar, e suplicar a Ti, nesta casa" (I Reis 8:33)

"Quando os céus se cerrarem, e não houver chuva, por ter o povo pecado contra Ti, e orar neste lugar, e confessar o Teu nome, e se converter dos seus pecados, havendo-o Tu afligido" (I Reis 8:35).

"Confessei-Te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e Tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado" (Sal. 32:5).

"Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mateus 3:2).

"E eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados" (Mat. 3:6).

Deus Se limita à confissão para poder perdoar? Respondo com outra pergunta: Deus obriga quem não tem senso do pecado e não sente a necessidade do perdão a aceita-Lo? Se Deus está à porta (Apoc. 3:20) e Sua entrada é condicionada ao livre-arbítrio humano, a confissão é o sinal verde do homem para Deus avançar com o perdão.

A confissão é o exercício da consciência para o aprofundamento e refinamento da consciência quanto a Deus e ao pecador.

A lição diz que é um meio apontado pelo Céu para nos ajudar a compreender quão doloroso é o pecado. Isso faz-nos lembrar que no ritual do Santuário era necessário que o penitente colocasse a mão na cabeça do animal, confessando seu pecado e sua culpa reconhecida, transferindo-os assim para o animal como seu substituto.

Isso ilustra a cruz e a realidade do Santuário Celestial e, por conseguinte, a necessidade da confissão.

Diz a mensageira do Senhor que "a confissão não será aceitável a Deus sem o sincero arrependimento e reforma. É preciso que haja decisivas mudanças na vida; tudo que seja ofensivo a Deus tem de ser renunciado." – Caminho a Cristo, pág. 39.

Diz mais: "O povo de Deus precisa agir com sensatez. Não deveriam ficar satisfeitos até que cada pecado conhecido seja confessado; então é seu privilégio e dever crer que Jesus os aceita." – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 167.

Após a confissão deve haver lugar para a certeza do perdão. Os seguintes textos: nos ajudam a ver que Deus é "rico em perdoar" (Isa. 55:7):

"Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto" (Salmo 32:1).

"Perdoaste a iniqüidade de Teu povo, encobriste os seus pecados todos" (Salmo 85:2).

"Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades; quem sara todas as tuas enfermidades" (Salmo 103:3).

"Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos Me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei" (Jeremias 31:34).

"Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar" (Isaías 55:7).

"Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós"; (Colossenses 3:13).

"No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça" (Efésios 1:7).

A certeza do perdão é tão importante quanto o próprio perdão.

O relato do paralítico em Luc. 5:18-20 esclarece muito sobre o perdão.

1 – Houve arrependimento (O Desejado de Todas as Nações, pág. 268).

2 – Houve uma silenciosa confissão expressa no olhar: "O Salvador contemplou o doloroso semblante, e viu os suplicantes olhos fixos nEle." – O Desejado de Todas as Nações, pág. 268.

3 – Houve o perdão e a certeza dele.

A certeza e a paz desse perdão devem ser uma certeza para nós.

1 – "Jesus Cristo, ontem e hoje é o mesmo e o será para sempre." Heb.13:8.

2 – Ele chamou o paralítico de filho (Mat. 9:2; Mar. 2:5). E é assim que Ele nos trata também. "Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no Seu nome." João 1:12.

O status de filhos é igual para todos os que crêem e em todos os tempos.

3 – Os sentimentos devem estar subordinados à crença.

Se você crê na promessa – creia que está perdoado e purificado – Deus supre o fato: você será curado, exatamente como Cristo conferiu ao paralítico poder para caminhar quando o homem creu que estava curado. Assim é se, se você crer.

Não espere até sentir que estaá curado, mas diga: "Creio-o; assim é, não porque eu o sinta, mas porque Deus o prometeu." – Caminho a Cristo, pág. 45.

Juntando as partes de quarta e quinta-feira, em primeiro lugar queremos afirmar que o propósito principal não é dissertar acerca da lei, visto não ser esse o assunto em pauta. Mas vale ressaltar que Paulo não está sendo hostil quanto à lei, pois ele entraria em contradição, visto que em outro lugar ele diz que "a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom... a lei é espiritual" (Rom. 7:12 e 14). A Bíblia não se contradiz, se complementa.

Paulo não está mostrando a lei como um elemento que faz o pecado crescer, mas como uma lente que mostra o pecado tão nítido como de fato ele é "em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado." Rom. 3:20 conf. 7:7.

Uma visão clara do pecado e sua malignidade também mostra a impotência humana para libertar-se. Isso então coloca em relevo a graça de Deus como única e apta resposta para o problema do pecado, visto pelas lentes da lei. A lei mostra a sujeira, a graça traz água que purifica. Não se excluem, agem no mesmo propósito, salvar, "a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé" Gál. 3:24.

A superabundância da graça, de acordo com John Stott, se dá "porque Deus é superior ao homem, a graça é superior ao pecado, e a vida (que é o dom gratuito de Deus) é superior à morte (que é o salário do pecado)". Em conseqüência, os benefícios da redenção haverão de superar em muito os males da queda.

Toda a plenitude da malignidade do pecado só serve, de certa forma, para mostrar quão maior é a graça que perdoa. Tão grande quanto seu originador: o próprio Deus. O qual é incomensurável.

Pedro tentou entender o perdão como uma questão numérica, mas o perdão não é uma questão de matemática ou de leis, mas de atitude.

A disposição rabínica de perdoar somente três vezes era fruto de uma exegese distorcida de Amós 2:6 e Jó 33:29. Pedro acrescenta alguns números a mais, no entanto, não o suficiente para delimitar a atitude de um cristão verdadeiro. O paradigma do cristão é a atitude de Deus.

"Tanto quanto permitem suas muitas limitações, o cristão imita a perfeita e completa forma como Deus perdoa. ... O fato de o cristão ter sido um recipiente da completa medida do perdão divino o coloca na mais estrita obrigação de perdoar a seu próximo da mesma maneira como foi perdoado." – SDA Bible Dictionary, pág. 388.

O relato de Mateus 18:21-35, ilustrando o perdão, nos mostra a superabundante graça que perdoa um débito impagável. Por outro lado, mostra a impossibilidade da atuação da graça, não porque o Rei a retira, mas porque o servo nunca a recebeu.

Só a sensibilidade quanto ao tamanho do débito poderia levar o servo a apreciar o tamanho do perdão.

O seu débito de 10 mil talentos, de acordo com Josefo, era maior que a coleta de impostos de toda a Palestina. Ele teria de trabalhar 60 milhões de dias para pagá-lo. Jamais conseguiria, mesmo gastando toda a sua vida em trabalho. Assim é com o nosso débito do pecado. Jamais conseguiremos pagá-lo. Mas quando nos arrependemos, Deus nos livra dessa dívida.

·        Quão grandioso é seu pecado a seus olhos?

·        O reconhecimento deles tem ajudado você a aceitar e perdoar seus semelhantes?

A pergunta nº 5 da lição de quinta-feira: "Existe alguma possibilidade de o perdão de Deus se esgotar?" exige um esclarecimento.

A morte de Cristo foi um ato objetivo, mas sua eficácia só é operante se aceito de forma pessoal e individual.

"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16).

"Deus não é obrigado a perdoar o pecador, mas Seu gracioso caráter o impele a ir nessa direção, desde que o perdão seja desejado e solicitado. ..." – SDA Bible Dictionary, pág. 388.

Deus é inesgotável, mas Seu perdão não é dado para quem não o deseja e busca.

Perguntas para consideração:

·        Tenho sido paciente e disposto a perdoar os que me ofendem?

·        O perdão de Deus em minha vida é uma realidade que molda minhas ações para com os outros?

·        O senso da graça em minha vida tem-me feito uma pessoa agradecida e feliz?

Ilustração:

Havia um jovem no exército de Napoleão que cometeu um ato terrível a ponto de ser condenado à morte. Na véspera de seu fuzilamento, a mãe do jovem foi falar com Napoleão e implorou misericórdia para o filho.

Napoleão replicou:

– Mulher, seu filho não merece misericórdia.

– Eu sei – ela disse. – Se ele a merecesse, não seria misericórdia.

Alice Gray, Histórias Para o Coração, pág. 35.